Autora: Sandra Mesquita
Em um cenário de negócios que evolui a uma velocidade sem precedentes, a liderança ambidestra emerge como um diferencial estratégico. Este modelo de liderança reconhece a necessidade de equilibrar dois elementos fundamentais: exploração e execução.
A exploração refere-se à busca incessante por inovação, adaptabilidade e antecipação às mudanças de mercado. Em contrapartida, a execução concentra-se na otimização de processos, eficiência operacional e maximização dos recursos existentes. A verdadeira liderança ambidestra reside na habilidade de orquestrar esses dois elementos aparentemente contraditórios, criando uma sinergia que impulsiona o crescimento sustentável.
Compreendendo a Liderança Ambidestra
O conceito de liderança ambidestra tem várias origens e contribuições, sendo que Jeff Immelt, CEO da General Electric (GE) desempenhou um papel significativo na promoção e aplicação deste termo na GE, enfatizando a necessidade de combinar eficiência e criatividade para fomentar a inovação contínua.
A contribuição de Jeff Immelt e outros líderes, juntamente com acadêmicos como Charles A. O’Reilly III e Michael L. Tushman, ajudou a popularizar e desenvolver a compreensão da liderança ambidestra como uma estratégia valiosa para a sustentabilidade e o sucesso a longo prazo das organizações. A interação entre teoria e prática nesse contexto é essencial para uma implementação eficaz da liderança ambidestra em diferentes contextos organizacionais.
O conceito fundamental da ambidestria organizacional reflete a capacidade de examinar as condições presentes para otimizar as operações vigentes e, ao mesmo tempo, explorar e descobrir novas oportunidades de redefinição do modelo de negócios, assumindo riscos inovadores. Ter um bom desempenho nestas duas frentes, torna o negócio apto a ter um crescimento rápido e sustentável.
A ambidestria organizacional pode ser exemplificada pela atuação de um CEO que apresente apetite para riscos que podem redesenhar o seu modelo de negócios enquanto, simultaneamente, busca eliminar ineficiências operacionais, implementando práticas de liderança no modelo de negócios atual.
Estudos sobre o tema indicam fortemente que a liderança ambidestra está associada positivamente a desempenho consistente, com melhoria de resultados tanto para empresas em início de operações quanto para organizações estabelecidas. Ainda assim, a verdadeira ambidestria não é uma prática comum por exigir um equilíbrio difícil dos CEOs. Líderes que demonstram esse estilo de liderança precisam aceitar incertezas, ambiguidades, ambivalências, tensões e até mesmo conflitos, não recuando diante de situações desconfortáveis.
Princípios da ambidestria organizacional
1) Mentalidade: articulação de uma visão que consiga abarcar tensões concorrentes
Trata-se de uma habilidade de tolerar e ser atraído pela ambiguidade, usando das pressões ocasionadas por mentalidades conflitantes nas equipes para gerar e aprimorar novas ideias. Os CEOs que adotam uma liderança ambidestra, possuem uma mentalidade paradoxal – correm alguns riscos exploratórios enquanto apagam os incêndios de eficiência operacional; planejam o futuro ao mesmo tempo em que focam no presente; e criam eficiências organizadas enquanto, simultaneamente, buscam a inovação em meio ao caos.
Além de terem uma mentalidade paradoxal, articulam e reforçam de maneira contínua essa visão, de forma a estabelecer a ambidestria como uma visão e um valor comum a toda a organização. Ao formatarem essa visão, buscam desenvolver um objetivo estratégico envolvente, que justifique claramente que tanto as descobertas quanto as operações são centrais para os objetivos de negócios.
2) Cultura: Formação de uma equipe que lidere com ambidestreza para criação de cultura
É importante atuar no cultivo de uma cultura que tanto o CEO como toda a liderança promovam a ambidestria ativamente, adotando doses certas de “rigidez” e “flexibilidade” para abarcar inovações, autonomia, inovação, apetite para riscos e abertura, ao mesmo tempo que adota ritos e processos para sustentar o dia-a-dia do negócio. Uma cultura “rígida e flexível” ajuda a manter todos os negócios caminhando na mesma direção.
Para conseguir formar uma equipe que atue com ambidestreza, é necessário que o CEO procure se cercar, tanto de perfis examinadores – aqueles que buscam ordem e otimização – quanto de descobridores, que são mais questionadores, abrindo espaço para acomodar as diferentes ideias, ao mesmo tempo que orienta a todos para uma convergência dos objetivos do negócio e os resultados esperados. Com essa estratégia, é possível desafiar as estruturas a pensarem diferente, articulando uma visão que comunique de maneira contínua os esforços tanto de manutenção da operação como as inovações e seus benefícios. Todos esses mecanismos podem fazer parte do sistema de recompensas da empresa, evitando assim conflitos improdutivos e encorajando discussões construtivas de diferentes pontos de vista.
3) Estrutura organizacional: incorpore a ambidestria no projeto da organização
A ambidestria não é apenas uma mentalidade e não pode ser exercitada somente pelos executivos. O seu conceito precisa ser incorporado no planejamento estratégico da empresa e passado para todas as equipes.
Algumas organizações que adotam uma mentalidade mais ágil, procuram abordar o tema com todos os times, encorajando as ações para otimização operacional ao mesmo tempo que abrem espaço para explorações de novas oportunidades. O segredo aqui é atuar de maneira contínua no acompanhamento e incentivar a interação dos responsáveis pela operação com as pessoas que possuem um papel exploratório, tanto no sentido de colaboração como no confronto de ideias. Trata-se de uma dinâmica que permite que toda a empresa alterne facilmente entre os dois modos, em todos os níveis e por todas as funções.
Uma forma de lidar com o conflito entre operação e descoberta é a adoção de uma abordagem de portfólio, aonde é possível enxergar todas as iniciativas, tanto aquelas voltadas para geração de caixa de curto prazo e fontes de sobrevivência, como aquelas voltadas para o desenvolvimento de novos produtos, serviços e/ou modelos de negócio. Ao longo do tempo, esses conjuntos de atividades são movidos gradualmente de um foco central em inovação para outro que busca a eficiência, ou vice-versa, o que significa que o portfólio da organização como um todo se mantém equilibrado a todo momento.
Ativando a cultura da ambidestria na organização com a constituição de um Conselho Consultivo
Colocar esses princípios em prática nem sempre é uma tarefa fácil, pois envolve gerenciar duas abordagens aparentemente contraditórias. Uma das principais dificuldades reside em evitar extremos, ora dando atenção somente para a operação do dia-a-dia, ora buscando encontrar saídas somente com o olhar externo. O segredo está exatamente na articulação destas duas visões para que as inovações tragam também melhorias que enderecem as dificuldades operacionais. É exatamente nesta articulação entre a visão estratégia com a operação que se posiciona um conselho consultivo. Por meio da adoção de práticas de governança corporativa sob medida, o conselho consultivo apoia o CEO endereçando assuntos voltados para a eficiência, ao mesmo tempo que traz reflexões sobre o futuro, conectando novas possibilidades para a sustentabilidade do negócio.
Portanto, a relação entre a liderança ambidestra e a governança corporativa é crucial. Um conselho consultivo bem formado, com experiências diversificadas, pode ser o catalisador para ativar a liderança ambidestra nas empresas. Além de fornecer insights valiosos, a governança eficaz contribui para uma tomada de decisão equilibrada e transparente, fortalecendo a base para a perenidade dos negócios.
Em resumo, a liderança ambidestra não é apenas uma teoria; é uma prática essencial para navegar nas águas desafiadoras dos negócios modernos. Ao integrar essa abordagem com uma governança corporativa sólida, as empresas podem construir a resiliência necessária para prosperar em um ambiente de negócios em constante evolução.
Agradeço por acompanharem minha jornada e por compartilharem este espaço de reflexão comigo. Continuaremos a explorar juntos as nuances e desafios do mundo dos negócios.
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